· Diogo Silva
Deus e o Belo
Se Deus é o próprio Ser, então a beleza não é um adorno religioso: é um sinal da ordem, da verdade e do bem que todas as coisas recebem d'Ele.
Há perguntas que parecem estéticas, mas são metafísicas. Perguntar porque Deus tem de ser belo, bom e justo não é perguntar se a religião precisa de uma linguagem mais bonita. É perguntar que tipo de realidade Deus é, e que relação existe entre Ele e tudo aquilo que, no mundo, ainda nos parece verdadeiro, íntegro e digno de amor.
A tradição escolástica começa por uma afirmação simples e vertiginosa: Deus não é apenas um ente mais perfeito do que os outros. Deus é o próprio Ser subsistente, o ipsum esse subsistens. As criaturas têm ser; Deus é o Ser. Tudo o que existe recebe o ser de modo limitado, composto e participado. Deus não o recebe. N'Ele, essência e existência coincidem.
Daqui decorre uma consequência importante: aquilo que encontramos nas criaturas como perfeição parcial, bondade, verdade, unidade, justiça, sabedoria, beleza, existe em Deus de modo pleno. Uma árvore pode ser bela. Um homem pode ser justo. Uma obra humana pode revelar proporção, inteligência e esplendor. Mas todas essas perfeições aparecem nelas como participação. Em Deus não são acrescentos. Deus não tem bondade como quem possui uma qualidade. Deus é o Bem. Não tem beleza como ornamentação. É a Beleza na sua fonte.
Por isso, dizer que Deus poderia ser feio, injusto ou moralmente perverso é introduzir n'Ele uma carência. A fealdade, tomada no seu sentido mais profundo, é desordem do ser; a injustiça é desordem da vontade; a limitação é sinal de finitude. Nenhuma destas coisas pode existir no Ato puro, onde não há potência por cumprir, falta por remediar ou composição que possa desfazer-se.
Quando falamos do belo, falamos de uma das formas pelas quais o ser se torna luminoso à inteligência. Tomás de Aquino liga a beleza àquilo cuja percepção agrada por si mesma. A coisa bela não é apenas útil, nem apenas agradável aos sentidos. Ela revela uma ordem interior. Tem integridade, porque não lhe falta o que devia ter; tem proporção, porque as partes se encontram num todo inteligível; tem claridade, porque a forma resplandece.
Esta maneira de pensar ajuda a purificar a palavra beleza. No uso comum, beleza pode significar apenas gosto, aparência, decoração ou moda. Mas, no seu sentido mais alto, a beleza é o brilho da verdade e do bem. É por isso que ela atrai sem precisar de se justificar. Quando encontramos uma liturgia bem ordenada, uma paisagem intacta, uma família em paz, uma obra feita com cuidado ou um gesto de caridade silenciosa, percebemos que a beleza não é superficial. Ela educa o desejo.
A criação inteira pode então ser lida como participação. A ordem do mundo, a variedade das criaturas, a simetria de certas formas, a força de uma montanha, a delicadeza de uma criança, tudo isto não é Deus, mas aponta para Deus. O erro seria confundir o sinal com a fonte. O sinal é real, mas não se basta a si mesmo.
É aqui que o cristianismo acrescenta algo decisivo. Em Cristo, a Beleza de Deus não aparece apenas como harmonia abstracta, mas como amor entregue. A Cruz parece, aos olhos do mundo, o contrário da beleza: corpo ferido, abandono, derrota. E no entanto é ali que a caridade divina resplandece de modo mais radical. A beleza cristã não é cosmética. É a forma do amor quando o amor vai até ao fim.
Isto muda a forma como olhamos para a cultura, para a arte, para o trabalho e até para a vida profissional. Não basta produzir coisas funcionais, rápidas ou eficientes. Uma vida humana precisa de ordem, verdade e beleza para não se tornar apenas gestão de tarefas. O belo recorda-nos que a realidade não existe só para ser usada; existe para ser recebida, contemplada e, quando possível, devolvida com gratidão.
Talvez por isso a beleza seja tão necessária numa época saturada de ruído. Ela interrompe a utilidade imediata. Faz-nos levantar a cabeça. E, se for autêntica, não nos fecha nela própria: conduz-nos ao Ser de quem toda a beleza criada participa.