Diogo Silva

Saber ler a sala

O talento conta. Saber ouvir, comunicar e perceber quando o nosso papel mudou também faz parte de uma carreira.

Quando escrevi no LinkedIn sobre a situação de Cristiano Ronaldo, interessava-me o que aquele caso podia ensinar sobre carreira e liderança. Sobretudo, uma fragilidade que pode acompanhar até os percursos mais extraordinários: sermos muito bons no que fazemos e, ainda assim, termos dificuldade em perceber o que se passa à nossa volta.

É tentador acreditar que a competência resolve tudo. Se trabalharmos o suficiente, se tivermos resultados, se chegarmos a ser dos melhores, parece razoável esperar que o nosso lugar esteja assegurado. E quanto mais tempo passamos a provar o nosso valor, mais difícil pode ser aceitar que esse lugar mudou.

O trabalho feito continua a contar. Mas as pessoas com quem trabalhamos, as necessidades de uma equipa e aquilo que se espera de nós podem mudar. Uma carreira exige que consigamos acompanhar essa mudança, incluindo quando ela contraria a imagem que temos de nós próprios.

Era a isso que me referia quando usava a palavra awareness: a capacidade de ler a realidade e de perceber o efeito que temos nos outros. Conseguir sair, por momentos, da nossa própria versão dos acontecimentos.

É uma capacidade menos confortável do que parece.

Podemos entrar numa conversa convencidos de que estamos a defender o nosso trabalho e fazer os outros sentir que o trabalho deles não conta. Podemos querer esclarecer uma injustiça e escolher palavras que tornam qualquer entendimento mais difícil. Podemos interpretar uma mudança de responsabilidades como uma desconsideração, antes de percebermos o que a motivou.

As nossas intenções ajudam a explicar o que fazemos. As consequências também precisam de entrar nessa explicação.

Pensemos num profissional que apresenta bons resultados há anos. Numa reunião, um colega mais novo aponta um problema no seu método. Se a resposta for uma enumeração dos seus sucessos, a conversa fica bloqueada. A questão concreta continua por resolver e o colega aprende que, da próxima vez, talvez seja melhor ficar calado.

O profissional pode ter razão sobre o método. Ainda assim, a forma como respondeu tornou mais difícil descobrir isso.

É aqui que a comunicação pesa numa carreira. Saber explicar uma decisão, ouvir uma objeção até ao fim ou reconhecer um erro permite que os outros continuem a trabalhar connosco. Até uma divergência séria pode ser discutida quando existe confiança suficiente para a suportar.

Com o sucesso, essa confiança merece especial atenção. Quem tem autoridade ou uma reputação forte pode receber menos críticas francas. Os outros hesitam, escolhem melhor as palavras ou desistem de dizer alguma coisa. E torna-se fácil confundir essa ausência de resistência com concordância.

Um líder precisa de perceber o que acontece à conversa quando entra na sala. As pessoas continuam a falar com a mesma liberdade? Alguém consegue discordar sem ter de preparar uma defesa da sua lealdade? Há espaço para trazer um problema antes de haver uma solução?

Estas perguntas têm consequências práticas. Uma equipa que esconde dificuldades ao responsável dá-lhe menos informação para decidir. E um responsável que reage mal às más notícias pode acabar surpreendido por problemas que os outros já conheciam.

Claro que há momentos em que é preciso contrariar a sala. Uma decisão pode ser impopular e necessária; uma crítica pode ser injusta. A capacidade de ler o contexto ajuda precisamente a distinguir essas situações e a escolher como agir. Defender uma posição exige perceber com quem estamos a falar e o que está em causa para essas pessoas.

Talvez o exercício mais difícil seja ouvir alguém dizer que a nossa forma de participar precisa de mudar. Podemos precisar de dar mais espaço, de explicar melhor o que queremos ou de aceitar uma responsabilidade diferente. Para quem passou anos a construir um lugar, essa conversa pode parecer uma ameaça a tudo o que fez.

Mas o valor do nosso percurso também se revela na maneira como respondemos ao que vem a seguir.

No texto original, escrevi que podíamos arriscar-nos a «perder tudo em meses». É uma expressão forte. O trabalho feito não desaparece de um dia para o outro. O que pode deteriorar-se depressa é a confiança, a disponibilidade dos outros para trabalhar connosco e o espaço que temos para continuar a contribuir.

Por isso, comunicar e saber ler a sala são capacidades que vale a pena cultivar enquanto as coisas correm bem. Ouvir uma crítica pequena, pedir uma opinião sincera e reparar no efeito das nossas palavras dá-nos prática para as conversas mais difíceis.

Se isto merece atenção numa carreira como a de Ronaldo, imaginem nas nossas.