· Diogo Silva · 4 min de leitura
A impossibilidade de separar costumes e economia
Não há economia moralmente neutra: o modo como trabalhamos, compramos, contratamos e lucramos acaba sempre por formar os costumes que dizemos querer proteger.
Há uma fórmula comum na direita moderna: conservador nos costumes, liberal na economia. À primeira vista parece razoável. De um lado, família, religião, autoridade, continuidade. Do outro, mercado livre, iniciativa privada, menor intervenção do Estado. O problema é que a fórmula parte de uma divisão artificial. Os costumes não vivem num compartimento separado da economia. A economia forma hábitos, ritmos, desejos e dependências. Mais cedo ou mais tarde, aquilo que uma sociedade permite no mercado aparece também na casa, na escola, na paróquia e na política.
O conservadorismo moderno nasceu, em grande parte, como reacção aos excessos revolucionários, mas aceitou muitos dos pressupostos que os tornaram possíveis: a fé como assunto privado, a política como mera gestão de interesses, a economia como domínio técnico e moralmente neutro. Quando a religião deixa de ordenar a vida pública, os valores que sobram passam a depender de consensos frágeis. Querem-se conservar os frutos depois de cortadas as raízes.
É aqui que a tensão se torna mais visível. Uma cultura pode defender a família em discursos, mas se organiza o trabalho de modo a tornar quase impossível uma vida familiar estável, está a formar outra coisa. Pode elogiar a natalidade, mas se transforma a casa numa unidade permanentemente pressionada por crédito, mobilidade laboral, consumo e insegurança, não deve surpreender-se com famílias pequenas, cansadas e adiadas. Pode falar de tradição, mas se aceita que toda a cultura seja subordinada à maximização da atenção e do lucro, acabará por ter entretenimento de massas, vício e dispersão.
Comprar, vender, investir, contratar e pagar salários são actos humanos. Logo, são actos morais. Não se tornam neutros por entrarem numa folha de cálculo. O salário injusto, a publicidade predatória, a financeirização da vida, a destruição do domingo, a pressão constante para desenraizar trabalhadores e famílias, tudo isto tem efeitos espirituais e culturais. Uma economia que trata o homem sobretudo como produtor e consumidor acabará por gerar costumes compatíveis com essa visão.
A Doutrina Social da Igreja tem aqui uma lucidez rara precisamente porque recusa o dualismo. Não reduz a sociedade ao Estado, como faz o socialismo; mas também não transforma o mercado em critério último, como faz o liberalismo económico. Parte antes da pessoa humana, da família, da propriedade com função social, da subsidiariedade, do salário justo, da solidariedade entre corpos sociais e do bem comum. A economia deve servir a vida humana ordenada para Deus, e não capturá-la.
Isto não significa romantizar a pobreza, negar a iniciativa privada ou suspeitar de todo o lucro. O lucro pode ser sinal de trabalho bem feito e de valor criado. A propriedade privada protege a liberdade concreta das famílias. A pequena empresa, o ofício, a poupança e a responsabilidade pessoal são bens reais. O que está em causa é outra coisa: a pretensão de que o mercado, deixado a si mesmo, produzirá uma ordem moral compatível com a vida cristã. Não produzirá.
Também não basta responder com estatismo. Quando o Estado absorve aquilo que pertence à família, à comunidade local, à escola, à paróquia ou aos corpos intermédios, destrói a liberdade que dizia proteger. A alternativa cristã não é escolher entre o indivíduo isolado e o Estado total. É reconstruir uma ordem social onde as comunidades naturais tenham densidade suficiente para resistir tanto ao capital sem freio como à burocracia sem rosto.
É por isso que a pergunta económica é sempre uma pergunta cultural. Que tipo de pessoa este sistema recompensa? Que tipo de família torna possível? Que hábitos promove? Que vícios explora? Que bens considera inúteis por não serem imediatamente rentáveis? Uma sociedade pode dizer que conserva os costumes, mas se a sua economia recompensa permanentemente o contrário desses costumes, está apenas a gerir a própria contradição.
A expressão “conservador nos costumes e liberal na economia” é, no fundo, a tentativa de manter uma casa em pé enquanto se aceita que as fundações sejam escavadas todos os dias. Pode funcionar como slogan eleitoral. Não funciona como filosofia social. O homem é uno. A vida moral é una. E uma civilização que queira defender a família, a fé, o trabalho digno e a comunidade terá de ordenar também a economia a esses fins.
A crítica ao liberalismo económico, feita a partir da tradição católica, não é uma nostalgia nem uma recusa infantil da modernidade. É a insistência numa evidência antiga: os bens materiais são bens, mas não são o Bem. Quando ocupam o lugar do fim último, exigem sempre sacrifícios humanos. A tarefa é devolvê-los ao seu lugar: meios ao serviço da pessoa, da família, da comunidade e de Deus.