Diogo Silva

Rumo ao Deserto

Desinvestir do mundo não é abandonar os deveres concretos; é recuperar silêncio, oração e critério numa cultura que pede atenção permanente.

Os últimos anos têm tornado uma coisa mais clara: é preciso desinvestir do mundo. Não no sentido teatral de desaparecer, nem no sentido irresponsável de abandonar trabalho, família ou deveres de estado. Falo antes de retirar ao mundo o direito de nos ocupar por dentro.

Vivo, como tantos, no meio de obrigações muito concretas: família, filhos, trabalho, tecnologia, horários, contas, decisões pequenas e grandes. Não sou um contemplativo retirado. Talvez precisamente por isso a pergunta me pareça cada vez mais urgente. Como é que se ouve Deus no meio de tanto ruído? Como é que uma casa cristã aprende a respirar quando tudo à volta exige reacção permanente?

A mudança para perto de Fátima foi, para nós, menos uma estratégia do que uma obediência amadurecida. Primeiro parecia uma ideia desproporcionada. Depois foi perdendo o absurdo. A certa altura tornou-se impossível de ignorar. A pedagogia de Deus raramente se impõe como um relâmpago. Mais vezes trabalha como água sobre pedra: insiste, amacia, desloca, até que aquilo que parecia impossível passa a parecer necessário.

Esse deslocamento exterior trouxe outro, mais silencioso. O contacto com a aldeia, com a terra, com ritmos mais simples e com os sacramentos vividos com maior proximidade foi criando uma espécie de deserto interior. Não um vazio triste, mas uma distância saudável. Uma vontade de escolher melhor o que entra em casa, o que ocupa a mesa, o que rouba a atenção, o que merece resposta.

Há uma ironia nisto. Durante anos, fazer da conversa, do áudio e do vídeo a forma principal de servir pode parecer o caminho óbvio: falar mais, explicar mais, chegar a mais gente. E isso pode ser bom. Há almas que precisam de ouvir uma palavra no momento certo. Mas também há um ponto em que a informação, mesmo quando útil, continua a ser ruído. As almas não precisam apenas de argumentos. Precisam de oração, penitência, silêncio e vida interior.

Fátima é, neste ponto, muito concreta. Nossa Senhora não pediu uma estratégia de comunicação. Pediu oração e penitência pela conversão dos pecadores. Isto não elimina a missão de anunciar a fé, nem dispensa o trabalho intelectual, nem torna inúteis as conversas públicas. Apenas recoloca tudo no seu lugar. A palavra que não nasce da oração corre sempre o risco de se tornar activismo religioso.

O mundo moderno é particularmente hábil a converter todas as coisas em urgência: política, trabalho, obrigações sociais, notícias, redes e discussões intermináveis. Quase tudo parece exigir opinião imediata. Mas talvez, em muitos casos, o silêncio seja uma forma mais séria de discurso. Não um silêncio cobarde, mas o silêncio de quem recusa que a própria alma seja arrastada para todas as arenas.

O deserto, então, não é fuga. É treino. É o lugar onde se aprende a distinguir o necessário do acessório, o dever da vaidade, a missão do desejo de controlar. Para uns será uma mudança de casa. Para outros será desligar certas fontes de ruído. Para outros, recuperar a mesa, a leitura, a oração familiar, o domingo, a confissão, a atenção aos filhos.

Desinvestir do mundo também não significa desprezar o mundo. Significa amá-lo na ordem certa. Continuamos obrigados a trabalhar bem, a sustentar a família, a honrar os pais, a cumprir o que nos cabe. Os deveres de estado são caminho de santificação, não obstáculo a ela. Mas há formas diferentes de cumprir esses deveres: uma com a alma sempre sequestrada, outra com a alma orientada para o fim último.

Por isso volto muitas vezes a esta palavra: deserto. Não como pose espiritual, mas como necessidade prática. Num tempo em que quase tudo disputa a nossa atenção, talvez a decisão mais contracultural seja simples: rezar mais, falar menos, escolher melhor as batalhas e deixar que Deus ocupe o centro que tantas coisas reclamam sem direito.